sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mosquete com percussão por espoleta:Uma raridade do mundo das armas, encontrado no coração da floresta Amazônica

Começamos este ano de 2015 com uma matéria pra lá de interessante: Durante uma de nossas aventuras, fizemos amizade com um caboclo que vive sozinho com Deus, no meio da floresta Amazônica, num dos municípios do Pará.
Seu Argemiro tem quase 90 anos, mas, apesar do reumatismo tentar lhe abater, resiste a tudo e a todos e garante viver muito feliz e em paz. Cuida da roça e quando quer comer carne, apanha sua velha espingarda e "POW": Lá se vai mais um bicho pra panela. Do alto da sua inteligência, garante:"Nunca matei um animá por prazer ou perversidade! Só atiro mermo se fô pra cumê!" Nisto, este autor concorda plenamente!.
Quero esclarecer que não aparecí no sítio do seu Argemiro, assim do nada. Fui apresentado a ele por um outro amigo morador da floresta que era caçador e sempre me prometia apresentar outro caçador da velha guarda e que além de atirador, gostava muito de armas e possuia uma espingarda que pertencia a família dele havia várias gerações.
Chegamos ao sítio do seu Argemiro por volta das 6:30 da manhã. Depois das apresentações, mostrei minha carabina de pressão .22mm ao experiente caçador e o deixei a vontade para experimentar a arma. Ele ainda não conhecia armas de pressão neste calibre. Expliquei a ele como a arma funcionava e ele se encorajou a experimenta-la. Coloquei uma latinha de sardinha a cerca de 10 metros e sem apoiar a pesada arma ele acertou quase no centro do alvo. Me impressionou muito a sua pontaria. Isto sem contar que o atirador possui quase 90 anos e não usa óculos.
Conversa vai, conversa vem, perguntei que arma ele usava para caçar. Seu Argemiro me respondeu que usava preferencialmente duas armas: Uma cartucheira 36 e uma punheteira Amazonas.
Você deve estar se perguntando: "O que é punheteira?" É como também é conhecida a espingarda de antecarga, ou seja: De carregar pela boca do cano. É o sistema mais antigo, em que o atirador deposita a pólvora através da boca do cano e em seguida, utiliza uma vareta para socar uma bucha que irá prender e comprimir a pólvora na parte de trás do cano. Em seguida, deposita-se os chumbos ou balote no interior do cano e soca-se a bucha final. Por último, o atirador arma o cão e coloca a espoleta no ouvido da espingarda. Ao puxar o gatilho, o cão martela a espoleta, a brasa passa pelo ouvido e queima a pólvora que explode o impulsiona os chumbos para fora da espingarda.
Perguntei há quanto tempo o caçador possuía a Amazonas e o seu Argemiro afirmou que o bacamarte(nome carinhoso que o caboclo também deu à arma) pertenceu a seu avô e que já foi comprada usada de um americano que viveu na região por algum tempo e que a espingarda tinha, no mínimo, uns 130 anos.
Não me contive e perguntei se poderia ter o prazer de ver esta raridade. O caçador me respondeu que não só poderia ver como também poderia atirar com ela. Foi até um pequeno compartimento da sua cabana e retornou com a arma totalmente enrolada em um grosso cobertor. A medida que seu Argemiro ia desenrolando a arma, meu coração pulsava mais forte. Era como uma criança esperando um adulto desenrolar uma bala! Quando pude, enfim, examinar a arma, constatei estar diante de uma relíquia: Uma espingarda de antecarga que pode ter até 198 anos. Isto mesmo que você leu. No cano da arma, ainda bem legível, está a inscrição 1817, como você pode ver na foto abaixo:
Cada detalhe da arma parece nos transportar no tempo e na história:
No detalhe, o reservatório para guardar espoletas (espoleteira) em aço, incrustado na coronha.
Na parte de trás, vê-se o gatilho, o cão e o ouvido da arma, onde é encaixada a espoleta.
Segundo o proprietário, as peças são todas originais. As únicas alterações foram apenas aplicação de verniz na coronha, solda para reforçar o ouvido que, durante a explosão da pólvora, sofre grande pressão e a vareta de carregar que foi perdida por um "cuidadoso" que apanhou a arma emprestada!
A vareta para carregar fica guardada sob o cano.
A boca do cano, com aproximadamente 15mm de diâmetro.
O carregamento desta relíquia é feito pela boca do cano, onde o atirador primeiro deposita a pólvora negra, depois a bucha e em seguida os chumbos ou balote. Depois outra bucha e finalizando encaixa a espoleta detonadora no ouvido da arma.Nesta demonstração eu usei carga de 6 chumbos em cada carregamento, ou seja: A arma disparou 6 chumbos grandes 4T de uma só vez em cada disparo, um verdadeiro canhão
Fiz uma exibição de tiro com esta raridade e apenas constatei o que já imaginava: O mosquete é extremamente preciso e tem alto poder de destruição como vocês poderão ver nas imagens a seguir:
O exato momento em que o tiro simplesmente explode uma garrafa com água.
No detalhe, a grande labareda, no exato momento em que os projeteis deixam o cano da arma.
Na sequência de imagens abaixo, vocês podem ver um tiro no qual explodí duas latas de uma só vez:
Após a fantástica série de tiros com alvos a várias distâncias, limpei a arma e a entreguei ao dono que, antes de guardar a raridade, ainda fez questão de dar seu toque de mestre no aço do bacamarte que, apesar da idade, ainda está impecável.
Um abraço e meus agradecimentos ao meu amigo Argemiro que, há tempos, já é considerado uma lenda na região.
*Wallace Wsniper, autor desta e de centenas de outras matérias sobre armas e tiro é atirador, armeiro, pesquisador e autor do livro "O FASCINANTE MUNDO DAS ARMAS DE PRESSÃO & FOGO" que você pode ler CLICANDO AQUÍ

2 comentários:

  1. eu tenho uma dessa obrigado por ajudar a descobrir a idade ferzinhonivana@hotmail.com (facebook)

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  2. Quando criança, fazia caça com o meu irmão que tinha várias destas, até hoje sei utilizá-las mas, já não temos mais pois, a lei nos tirou o direito de possuí-las.

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